Paul Emile De Puydt
Publicado originalmente no Revue Trimestrielle, Bruxelas, Julho de 1860
Nota do tradutor
Durante a feitura desta tradução foi de essencial ajuda a consulta de outras traduções para vários idiomas encontradas em http://www.panarchy.org/ . Embora alguma parte deste trabalho não tenha sido traduzida diretamente do original, o mesmo foi constantemente consultado.
I
PREFÁCIO
Um contemporâneo disse: “Se a verdade estivesse em minhas mãos, eu deveria ser cauteloso em deixá-la escapar”. Enquanto estas são talvez as palavras de um letrado, certamente são as de um egoísta.
Outro escreveu: “As verdades que menos se quer ouvir são aquelas que mais devem ser mostradas”.
Aqui temos dois pensadores cujas visões diferem grandemente. Eu estaria mais disposto a concordar com o segundo, embora na prática esta decisão apresente inconvenientes. Ao consultar homens sábios de todas as nações, sou ensinado que nem todas as verdades devem ser expostas. Mas, como saber quais se deve esconder? Em todo caso, o Evangelho diz: “nem se acende a candeia para se colocar debaixo do alqueire”.
E eis que me tenho perplexo. Eu tenho esta nova idéia, ao menos assim creio, e sinto como meu dever difundi-la. No entanto, sinto uma inquietude com o chegar da hora de abrir a mão: Qual o inovador não foi um pouco perseguido?
A invenção, uma vez publicada, será julgada por seus próprios méritos, eu a considero emancipada. Minha preocupação é pelo autor. Ele será perdoado por ter tido uma idéia?
Um antigo que salvou Atenas e a Grécia, dizia a alguém brutal que, tendo esgotado todos os argumentos durante a discussão, brandia um bastão sobre ele: “Golpeia – Mas escuta!”. A Antiguidade está cheia de tais exemplos. Dessa forma, seguirei Temístocles, propondo minha idéia e a fazendo pública: Leiam-na até o final, e só então me atirem pedras, se assim quiserem.
Entretanto, compreendo que não serei apedrejado. O bruto do qual eu falava morreu em Esparta há 24 séculos, e nós podemos ver quanto progresso a humanidade alcançou em 2400 anos. Em nosso tempo idéias podem ser livremente expressas; e se ocasionalmente um inovador é atacado, não é como tal costumava ser, em tempos antigos, mas sim sob a forma de acusação de agitador ou utópico.
Tranqüilizado por estas reflexões, eu finalmente entro no assunto.
II
“Senhores, eu sou amigo de todo o mundo” (Sózia, de Molière)
Eu tenho uma alta estima pela Economia Política e gostaria que todo o mundo também compartilhasse dessa opinião. Esta ciência, nascida recentemente e já a mais importante de todas, está distante de ter alcançado seus últimos resultados. Cedo ou tarde (espero que cedo) ela regerá todo o universo. Eu tenho motivos para assim dizer, já que foi dos trabalhos de economistas de onde derivei os princípios para os quais eu proponho uma nova aplicação, mais ampla e não menos lógica que outras.
Antes, citemos alguns aforismos, cujo encadeamento irá preparar o leitor.
“Liberdade e propriedade são diretamente conectadas – uma favorece a distribuição de riqueza, a outra torna possível a produção.”
“O valor da riqueza depende do uso que se dá a ela.”
“Os preços de serviços variam diretamente com a demanda e inversamente com a oferta.”
“A divisão do trabalho multiplica a riqueza.”
“Liberdade traz a competição, que por sua vez cria o progresso.”
(Ch. de Brouckere, Principes généraux d’économie politique)
Donde se conclui a necessidade da livre competição entre indivíduos primeiro, e então entre nações. Liberdade de inventar, trabalhar, trocar, vender e comprar. Liberdade para escolher os preços de seus produtos – e simplesmente nenhuma intervenção do Estado fora da sua esfera especial. Em outras palavras: Laissez-faire, laissez-passer.
Aí está, em poucas linhas, a base da economia política, um resumo da ciência sem a qual não pode haver nada além de má administração e governo deplorável. É possível ir ainda mais longe e reduzir esta grande ciência para a maior parte dos casos em uma fórmula final: Laissez-faire, laissez-passer.
Tomando esta idéia, eu posso dizer: no domínio da ciência, não existem semi-verdades. Não existem verdades que, sendo válidas por um lado, deixam de ser sob outro aspecto. O sistema do universo é maravilhosamente simples, assim como é maravilhosa sua infalível lógica. Uma lei é a mesma sempre, suas aplicações é que são diversas. Dos seres mais complexos aos mais simples, do homem ao zoófito, até o mineral, todos eles oferecem íntimas similaridades de estrutura, de desenvolvimento e de composição; e surpreendentes analogias ligam o mundo material ao moral. A vida é uma unidade, matéria é uma unidade, apenas as manifestações são diversas, as combinações inumeráveis, as individualidades infinitas; mas o plano geral a tudo encobre, sem exceção. É a fraqueza de nosso entendimento, o vício de nossa educação, os responsáveis pela diversidade de sistemas e oposições de idéias. Entre duas opiniões que se contradizem, há uma verdadeira e outra falsa, a menos que ambas sejam falsas, mas anão podem ser as duas verdadeiras. Uma verdade cientificamente demonstrada não poderia ser verdadeira aqui e falsa em outro lugar; não poderia ser boa, por exemplo, para a economia política e má para a política: isto é o que desejo demonstrar.
A grande lei da economia política, a lei da livre competição, laissez-faire, laissez-passer, é apenas aplicável ao regimento de interesses industriais e comerciais ou, mais cientificamente, apenas à produção e circulação de riqueza? Considere as trevas da ciência econômica que esta lei veio iluminar, o problema permanente, o antagonismo permanente de interesses que ela pacificou. Não são estas condições encontradas em mesmo grau na esfera política? A analogia não indica um remédio similar para ambos os casos? Laissez-faire, laissez-passer.
Nós devemos notar, no entanto, a existência de governos aqui e acolá tão liberais quanto permite a fraqueza humana, ainda assim as coisas não são uma maravilha na melhor das possíveis repúblicas. Alguns dizem “Isto ocorre justamente porque há muita liberdade”, já outros: “Isto se dá porque ainda não há liberdade suficiente”.
A verdade é que não há a liberdade que deveria haver, a liberdade fundamental de escolher ser ou não ser livre. Cada um julga por si mesmo e define a questão de acordo com gostos e necessidades particulares, como há tantas opiniões quanto indivíduos, tot homines, tot sensus, é possível ver a confusão disfarçada com o bonito nome de política. A liberdade de uns é a negação dos direitos de outros, e vice-versa. O melhor e mais sábio dos governos não funciona com o livre e pleno consentimento de todos os governados. Há partidos, triunfantes ou vencidos, há maiorias e minorias em luta perpétua; e a paixão com que se apega a um ideal é tão grande quanto é a confusão de idéias. Alguns oprimem em nome do direito, outros se revoltam em nome da liberdade, para se tornarem eles mesmos opressores, quando chegada sua hora.
Entendo! – diz um leitor. Você é um desses utópicos que constroem a partir de muitas peças um sistema no qual a sociedade deve estar compreendida, por vontade ou força. Nada será como é, apenas sua panacéia salvará a humanidade. “Comprem minha salvação!”
Errado! Não tenho uma salvação que não seja a de todos, eu sou diferente de outros apenas em um ponto, é que sou partidário de todas as salvações, permitiria todas as formas de governo. Ao menos, aqueles que têm alguns partidários.
Eu não entendo mais.
Então, deixe-me continuar. Há uma tendência geral de se ir além do que se deve com uma teoria. Mas, daí se conclui que todos os elementos de uma teoria devem estar errados? Já foi dito que há certa perversidade e idiotice no exercício da inteligência humana. No entanto, declarar-se como não amigável à ciência especulava e detestar teorias, não é uma forma de renunciar nossa capacidade de pensar?
(Continua em breve…)

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