Nota do tradutor: O original foi retirado do Capítulo 4 do “Studies in Mutualist Political Economy”

(…)
Como Marx resumiu, a lenda da acumulação primitiva era um tipo de variação da fábula da formiga e da cigarra:

Em tempos longínquos, havia dois tipos de pessoas: um eram os firmes, inteligentes e, acima de tudo, a elite que controlava seus gastos; o outro eram os miseráveis preguiçosos, que gastavam suas posses e mais, numa vida turbulenta… Dessa forma se passou a crer que o primeiro tipo acumulou riqueza e o último tipo alcançou, finalmente, a condição de não ter nada a vender a não ser sua própria pele. E este pecado original marca o início da pobreza da grande maioria que, apesar de todo seu trabalho, tem hoje nada para vender a não ser eles mesmos, e a riqueza dos poucos que aumenta constantemente embora eles tenha deixado de trabalhar há muito tempo. Tal criancice insípida nos é pregada na defesa da propriedade… Na história verdadeira é notório que a conquista, escravização, roubo, assassinato… em resumo, que a força, fez o papel principal.

Talvez Engels devesse ter intitulado seu trabalho de Anti-Marx, em vez de Anti-Dühring.

Oppenheimer também recontou esta fábula edificante, em linguagem similar à de Marx. Entretanto, uma vez que Oppenheimer era um socialista defensor do livre mercado [NT: No original: ”free market socialist”] como Hodgskin e Tucker, ele não corria perigo (tal como corriam Marx e Engels) de embaraço subseqüente sobre as implicações de rejeitar o conto de fadas burguês.

Em algum lugar, num extenso e fértil país, um grupo de homens livres, de igual status, forma uma união para proteção mútua. Gradualmente eles se diferenciam em classes de propriedade. Aqueles melhores dotados de força, sabedoria, capacidade de economizar, de se industrializar e de precaução, lentamente adquirem uma porção de propriedade real ou móvel; enquanto os idiotas e menos eficientes, e aqueles propensos ao descuido e ao desperdício, continuam sem posses. Os prósperos emprestam sua propriedade produtiva aos menos afortunados em troca de tributo, seja em cima da terra ou lucro, e assim se tornam mais ricos, enquanto os outros continuam pobres… O estado primitivo dos livres e iguais se torna um Estado de classe, por meio de uma lei inerente de desenvolvimento, porque em toda massa concebível de homens há, como pode ser facilmente percebido, os fortes e os fracos, os espertos e os tolos, os precavidos e os gastadores.

Este mito anti-histórico sobreviveu durante o século XX, e ainda está vivo e bem – ao menos desde que não é desafiado pelos historicamente letrados. Foi declarado por Mises no Ação Humana:

Os donos de fábrica não tinham o poder de induzir alguém a aceitar um trabalho. Eles apenas podiam contratar aqueles que se prontificavam a trabalhar pelos salários oferecidos por ele. Baixos como eram esses salários, eles ainda eram muito melhores do que poderiam conseguir esses miseráveis em qualquer outro campo aberto para eles.

Essa visão pode ser ilustrada por um número de artigos padrão no The Freeman: Ideas on Liberty [NT: Uma publicação liberal mensal do FEE (Foundation for Economic Education)], refutando o “mito” do satânico e obscuro ambiente industrial e sweatshops [NT: Fábricas em que os operários trabalham por longas horas por baixo salários e em condições precárias.) do Terceiro Mundo, com o argumento de que trabalhadores acharam preferível aceitar isto às “alternativas disponíveis”:

(...)
Esta escola de libertarismo escreveu em sua bandeira este slogan reacionário: “Os pobres e velhos chefes precisam de toda ajuda que eles podem conseguir.”
[NT: No original: “Them pore ole bosses need all the help they can get”]. Para cada questão política imaginável, os caras legais e os malvados são previstos facilmente, apenas invertendo o slogan de Revolução dos Bichos: “Duas pernas, bom… quatro pernas ruuuuim.” Em todo caso, os caras legais, as vítimas sacrificadas pelo Estado Progressivo, são os ricos e poderosos. Os caras malvados são o consumidor e o trabalhador, agindo com interesse de se enriquecer usando o tesouro público. Como um dos exemplos mais distintos desta tendência, considere a caracterização das grandes corporações feita por Ayn Rand [NT: Romancista filósofa do objetivismo e influência de muitos autores libertários] como uma “minoria oprimida”, e do Complexo industrial Militar como um “mito ou pior”.

A sociedade de “livre mercado” de tal gente, ao que parece, é simplesmente o capitalismo de fato existente, menos o estado regulatório e de bem-estar; uma versão hipertireoidal do barão capitalista explorador do século XIX, talvez; ou ainda melhor, uma sociedade “reformada” por aqueles como Pinochet, o Dionísio que para Milton Friedman e os Chicago Boys fazia o papel de Aristóteles.

Os libertários vulgares, quando fazem apologia ao capitalismo, usam o termo “livre mercado” num sentido equivocado: eles parecem ter problemas em se lembrar, de um momento ao outro, se eles estão defendendo o capitalismo de fato existente ou princípios de liberdade de mercado. Então nós chegamos ao artigo padrão do Freeman, argumentando que os rico não podem enriquecer às custas dos pobres, porque “isto não é como funciona o livre mercado” – implicitamente assumindo que liberdade de mercado. Quando acurralados, eles admitem relutantemente que o sistema presente não é um mercado livre, na verdade ele inclui muita intervenção estatal em favor dos ricos. Mas assim que eles pensam que podem se livrar dessa, eles voltam a defender a riqueza das corporações existentes com base nos “princípios de liberdade de mercado”.

O mito capitalista de acumulação não se sustenta frente à evidência lógica ou histórica; frente a ambas, ele tem sido esmagado sem chances de se recuperar. Oppenheimer demonstrou a impossibilidade de tal acumulação primitiva por meios pacíficos. Exploração não poderia ter surgido numa sociedade livre, através da ação exclusiva do mercado.

A prova é como segue: Todos os professores do direito natural, etc., têm unanimemente declarado que a diferenciação em classes recebedoras de renda e classes sem propriedade só pode tomar lugar quando todas as terras férteis estiverem ocupadas. Desde que o homem tem ampla oportunidade de tomar terra desocupada, “ninguém”, diz Turgot [NT: Um importante liberal clássico francês, precursor da escola austríaca.], “pensaria em trabalhar para outro”; nós devemos adicionar, “ao menos por salários, os quais não são aptos a serem maiores que os ganhos de pequenos camponeses independentes trabalhando numa propriedade não hipotecada e grande o suficiente”; uma vez que a hipoteca não é possível porque a terra ainda é livre para que se trabalhe ou a tome, tão livre como o ar e àgua…

Os filósofos do direito natural, então, assumiram que a ocupação completa da terra deve ter ocorrido muito cedo, devido ao aumento natural de uma população originalmente pequena. Eles tinham a impressão que durante seu tempo, no século XVIII, isto tinha ocorrido há muitos séculos atrás, e eles ingenuamente deduziram o agrupamento existente de classes das condições assumidas daquele tempo no passado distante.

Ao examinar, Oppenheimer apontou que a terra não poderia ter sido ocupada por meios naturais e econômicos. Mesmo no século XX, e ainda mais no Velho Mundo, a população não era suficiente para cultivar toda terra arável.

Se, entretanto, causas puramente econômicas são capazes de trazer uma diferenciação entre classes pelo crescimento da classe trabalhadora sem propriedade, esse tempo ainda não chegou; e o ponto crítico ao qual a posse da terra irá causar uma escassez natural se encontra no futuro longínquo – ele pode, na verdade, nunca chegar.


A terra tem sido “ocupada” – mas não através de meios econômicos de apropriação individual pelo cultivo. Ela tem sido politicamente ocupada pela classe dominante, agindo através do estado.

É um fato que,… por séculos, em todas as partes do mundo, nós tivemos tido uma casse do Estado, com a classe proprietária no topo e a classe trabalhadora sem propriedade no fundo, mesmo quando a população era muito menos densa comparada com a atual. Agora, é verdade que a classe do Estado pode surgir somente onde uma extensão foi ocupada completamente; e desde que eu tenho mostrado que mesmo atualmente, toda a terra não é ocupada economicamente, isso deve significar que ela foi ocupada politicamente. Desde que a terra não pode ter adquirido “escassez natural”, a escassez deve ter sido “legal”. Isso significa que a terra tem sido tomada exclusivamente por uma classe dominante contra sua classe subjugada, e este acomodamento prevenido.

Essa afirmação, de forma alguma, depende simplesmente de argumentos dedutíveis. A possessão exclusiva da terra é um fato da história. Os fatos básicos, muito além de discussão, são acessíveis num extenso volume de trabalhos secundários de historiadores radicais tais como J.L. a Bárbara Hammond, E. G. Hobsbawm e E. P. Thompson.

O Capitalismo, surgindo como uma nova sociedade de classe diretamente da velha sociedade de classe da Idade Média, foi fundado num ato de roubalheira tão grande como da anterior conquista feudal da terra. Ele tem sido sustentado até o presente por meio da contínua intervenção estatal para proteger seu sistema de privilégios, sem o qual sua sobrevivência é inimaginável. A estrutura atual da posse de capital e da organização da produção na assim chamada economia de “mercado” reflete intervenção estatal coerciva anterior e externa ao mercado. Desde o início da revolução industrial o que é nostalgicamente chamado de “laissez-faire” era, de fato, um sistema de continuar a subsidiar a acumulação, garantir privilégio e manter a disciplina no trabalho; tudo isso usando intervenção estatal.

Sendo assim, simplesmente o maior subsídio ao moderno capitalismo corporativista é o subsídio da história, pelo qual o capital foi originalmente acumulado nas mãos de poucos, e o trabalho foi privado do acesso aos meios de produção e forçado a vender a si mesmo sob os termos do comprador. O sistema atual de posse de capital concentrada e de organizações corporativista de larga-escala é o beneficiário direto da estrutura original de poder e propriedade, a qual tem perpetuado a si mesma por séculos.

O texto original pode ser lido Aqui.

Kevin Carson se auto-intiula Mutualista e Anti-capitalista, é herdeiro dos anarco-individualistas e uma das maiores referências atuais da esquerda libertária. Seu livro “Studies in Mutualist Political Economy” tenta resgatar um teoria trabalhista do valor (só que subjetivizada) e demonstrar possíveis rumos para o movimento libertário.